Nós não precisamos de educação!

Paulo Freire - educador brasileiro. Destacou-se por seu trabalho na área da educação popular, voltada tanto para a escolarização como para a formação da consciência

Desenvolvi uma palestra sobre o tema Educação sob o olhar da tecnologia, e para isso é claro precisei sair em busca de informações e opiniões sobre o tema educação, já que não sou um educador de formação, e sim apenas de coração… E nessa caminhada em busca de respostas, e por um pontapé inicial eu me deparo com os pensamentos de grandes mestres da educação, como por exemplo Paulo Freire, que com frases como essa: “A educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tam pouco a sociedade muda” tinha o sonho de mudar a perspectiva do Brasil através da educação.

Não quero aqui me arriscar a alçar vôos neste tema da educação e suas perspectivas, mas não pude deixar de evitar essa reflexão, porque me parece que se tem concretizado a idéia de que a educação é a “salvação da pátria”, e que a escola é a grande redentora da sociedade, como um lugar de modificação das estruturas sociais e não da sua reprodução, que é o que em verdade ocorre, tanto para o bem quanto para o mal. Note-se que o mito da escola redentora faz as pessoas enxergarem essa idéia em qualquer discurso sobre a educação, mas sem pensar com mais atenção em como ela pode salvar o mundo, e se realmente pode fazê-lo!

Olhando para a história da educação brasileira, vejo que ela nasceu sob a sina da dependência e da reprodução do saber, nunca de sua criação. Profundamente elitista, voltou-se sempre para a formação dos meninos das classes ricas. Os cursos superiores, proibidos no Brasil durante o período de dominação portuguesa, eram realizados na Europa, e, quando, já no século XIX, as primeiras faculdades foram fundadas, instituíram-se cursos de nível profissionalizante, e não científico.

Longe de querer fazer um discurso de militante político, eu apenas quero dizer que visivelmente a história real da educação brasileira é regida pelos interesses econômicos dos governos, que se propunham a acompanhar os modelos e tendências mundiais. No primeiro reinado, em plena economia do café, descentralizou-se a política educacional, com as províncias sendo responsáveis pela fundação das escolas e formação dos professores. Ora, esse sistema discriminava as províncias alijadas dos círculos cafeeiros e açucareiros, que não tinham como investir nas suas escolas e portanto nada puderam fazer, e assim a nação brasileira já nasceu com uma educação desigual, que se limitava a ensinar a ler e efetuar contas para uma parcela ínfima da população.

O século XX chegou com o Brasil nessa mesma situação, mas também com o propósito oficial declarado de desenvolver mão-de-obra numa sociedade que exigia braços para a indústria emergente, ainda mais no período entre guerras, um contexto de transição econômica – de um modelo agrícola fundado na cultura do café, ao modelo industrial e à conseqüente criação de uma classe operária. Nesse cenário, a iniciativa foi a de pensar uma educação voltada para a praticidade e para a formação de quadros profissionais, mas mantendo conteúdos eminentemente elitistas e oligárquicos, haja vista os seus objetivos e feições: “ornamento cultural”, preenchimento de quadros burocráticos e preparação de profissionais liberais.

Em suma, esta é a escola brasileira real: uma escola que ainda não vislumbrou seu próprio caminho, aliás sequer reconheceu que deve procurar por um, porque não lhe foi dada a chance de descobrir isso com os seus próprios instrumentos. Seguramente, este é o movimento que Paulo Freire propõe em seus pensamentos sobre educação, mas para isso muitas coisas deverão acontecer, inclusive ser eliminada do imaginário coletivo a idéia de que a escola liberta, salva e redime as pessoas da miséria em todos os sentidos, porque isso está bem longe de ser verdade.

Em resumo, com ou sem educação a miséria no Brasil persistirá, sim, porque enquanto sobreviver a estrutura social de dependência e vassalagem a modelos externos, que trabalham para a manutenção da nossa condição subalterna no cenário mundial, seremos o resultado de uma educação baseada em apenas formar mão-de-obra mais barata.

Na minha palestra, vou tentar mostrar os caminhos que a educação pode tomar se usar a tecnologia, mas já adianto: É apenas mais um caminho de mudança, não é (não deve ser) o único caminho… Então, deixo à vocês um vídeo que uso na minha palestra, conhecido de muitos talvez pela música que embala essa mensagem contra o sistema que governa esse mundo, e quando falo do “sistema que governa esse mundo” eu não falo de pessoas ou paises, eu falo de nós mesmos…

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6 Resultados

  1. Betânia disse:

    O texto faz um contraponto entre educação e tecnologia que de maneira alguma poderá ser vista isoladamente,a frase”a educação sozinha não transforma a sociedade”.por que a educação é força de empoderamento pessoal e social do ser humano.A tecnologia é instrumeto de grande acesso aos jovens e também a adultos.
    Mas séra que os educadores estão a frente desta mudança?

  2. Luciano disse:

    Prof Antonio, eu acho que os alunos tem tido muito mais maturidade em relação à tecnologia do que os “adultos”, haja vista que as pesquisas mostram que as pessoas que mais omitem seu verdadeiro perfil em sites de relacionamentos são os “adultos”, pessoas acima de 35 anos, mas que nas comunidades se apresentam como adolescentes de 16

    Será que realmente podemos acreditar nos professores/adultos, e desacreditar dos alunos?

  3. Prof. Antonio B. Pereira disse:

    Lindo a frase, não precisamos de educação, no entanto, a educação no sentido amplo da palavra, é ser fino, elegante, com capacidade de diferenciar coisas boas e ruins. Com possibilidade de tentar resolver problemas da sociedade e do mundo. No entanto, embora seja uma ferramente essencial, não é a solução para todos os problemas. Temos observando grande numero de ocorrências e situações de perigo, usando a internet. O aluno ainda, que possui tudo em suas mãoes, não tem condições e maturidade suficiente para decidir tudo.

  4. Rodrigo disse:

    Galera, obrigado pelos feedbacks que recebi em relação á este texto, recebi alguns e-mails elogiando e outros criticando, e tudo isso é muito legal!!!

    Elogiar e criticar faz parte da maior de todas as capacidades do ser humano: PENSAR!!! E quando todos nós pensamos, chegamos à algum lugar

    Vlw

  5. Glauco disse:

    Olha Rodrigo… vou te falar uma coisa, tipo assim, eu li e reli o texto umas 3 vezes pra tentar entender onde voce exatamente quer chegar com essas sua avaliação, e cara, ou isso é uma viagem gigante da sua parte, eu então a gente tem vivido até aqui como dentro de uma matrix, um mundinho criado pra gente acreditar que somos capazes de pensar, quando na verdade somos realmente capazes apenas de reproduzir…

    Me lembro desse filme que fizeram com as músicas do Pink Floyd, e me lembro que ela aponta o sistema educacional como falho… quando refere-se ao professor como “another brick on the wall” (mais um tijolo na parede).

    A Parte II da música é muito conhecida por sua frase famosa “We don’t need no education…” basicamente é uma crítica ao rígido sistema educacional, que não deixava as crianças pensarem!

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